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O Problema da Programação: Que Televisão? E Para Quem?

Vencendo penosamente todo esse cipoal de entraves conceituais, legais e institucionais, a Televisão Universitária depara-se com outro problema fundamental: que programação fazer? A questão parece simples, ou mesmo óbvia. Trata-se de trabalhar sobre os conteúdos tratados pela universidade, e vertê-los em programas cujo formato seja atraente e eficaz para a compreensão e fixação do que é passado. Mas, considerando-se que o conhecimento que a universidade pretende abranger é todo aquele gerado pela experiência humana, e que os mais variados os formatos em que se pode produzir televisão, a simplicidade do problema evapora-se. Ainda mais quando essa televisão será produzida com poucos recursos e limitada capacitação técnica, como é a realidade universitária.

A programação de uma emissora de TV, em tese, é definida pelo público que se busca atingir. Identifica-se o perfil desse público, suas preferências, suas carências, e concebe-se programas que possam interessá-lo, atendendo às suas necessidades. Programar televisão, portanto, implica em primeiro olhar para o telespectador e, só a partir desse olhar, buscar os conteúdos e criar os formatos televisivos pelos quais serão transmitidos. Isso é especialmente relevante nesta época de televisão segmentada, em que proliferam os canais e, cada vez mais, busca-se nichos específicos de audiência, públicos determinados, com características e interesses comuns.

Muito bem: a que público, de fato, a Televisão Universitária se destina? Com quem ela deseja comunicar-se? Ao público em geral? À comunidade acadêmica? A ambos, indistintamente? Aqui retornamos ao problema conceitual. Não há clareza, na maioria das IES, sobre o que é Televisão Universitária e qual a sua missão. Em decorrência, não há uma identificação precisa de seu público-alvo, nem das estratégias de programação que é preciso seguir, para chegar até ele. 

Em geral, inverte-se o processo: os programas são pensados de dentro para fora das IES. Isto é, eles surgem como expressão da subjetividade dos produtores, como propostas de difusão de conteúdos que eles julgam relevantes e pretendem oferecer à fruição pública. Daí que, não por acaso, considerada a origem profissional desses produtores (em geral, profissionais de comunicação) e seu universo de interesses, tenha-se no ar uma abundância de programas sobre artes, mídia, cultura e humanidades em geral, e uma penúria quase total de programas sobre, por exemplo, matemática, engenharia, astronomia e tantos outros conteúdos. Daí também que poucos programas encontrem ressonância no público, gerando pouco volume e baixa fidelidade de audiência.

Quando as IES entendem que a Televisão Universitária deve se voltar prioritariamente para o público interno, a própria comunidade acadêmica, outro equívoco freqüente se comete. É o de formatar os programas conforme uma presunção estereotipada de comportamento e desejo dos segmentos desse público interno. É assim que os programas voltados aos estudantes devem ter, todos, uma linguagem "jovem, descontraída, informal, bem humorada" - como se apenas nessa linguagem os jovens se comunicassem. Da mesma forma, os programas voltados aos professores devem aparentar seriedade, ponderação, circunspecção, quando não gravidade e sisudez - como se excelência acadêmica fosse sinônimo de formalidade.

Por outro lado, observa-se um forte desequilíbrio entre os diversos gêneros de programação, nos produtos que a Televisão Universitária oferece a seu público, qualquer que seja ele. Há um predomínio total dos gêneros argumentativos, baseados na palavra - entrevistas, palestras, debates - e uma presença limitada dos gêneros contemplativos, centrados na imagem - documentários, reportagens, revistas jornalísticas. Quanto àqueles gêneros mais voltados às artes e à expressão do corpo, como a teledramaturgia, os musicais e o esporte, são absolutamente marginais na grade da maioria dos canais universitários - salvo aqueles que, nas cidades menores, onde a programação de TV vem toda de fora e não há espaço para os conteúdos locais, eles ocupam esse espaço e dialogam melhor com a comunidade, oferecendo a ela, na escala possível e na roupagem regional, os gêneros a que está habituada, pela programação das grandes redes.

A explicação para esse desequilíbrio de gêneros é dupla. De um lado, é forçoso admitir que, sendo o reino da palavra por excelência, o território privilegiado dos discursos, a universidade sente-se mais à vontade - e talvez cumpra melhor a sua finalidade - quando se utiliza de debates, entrevistas e palestras para comunicar-se pela TV. Mas deve-se considerar, também, e de forma muito objetiva, que esses são os formatos de produção mais simples e barata que a televisão oferece. Uma entrevista custa uma ínfima fração de um teleteatro, por exemplo. E não carece de profissionais especializados. Para emissoras de caixa sempre baixo e ainda imaturas tecnicamente, como as universitárias, há portanto gêneros de programação ainda inacessíveis. Ao menos, numa escala de produção mais industrial.

  
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