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TV Digital
A revolução digital está prestes a conquistar a grande fronteira da tecnologia de massa : os sistemas de TV. E diferentemente de outras áreas como a música ou a indústria fotográfica, o impacto em nossas vidas e nos nossos negócios será realmente profundo, mudando hábitos de consumo, lazer, relacionamento e criando portanto enormes oportunidades. Esse artigo lhe mostrará porque.
Antes de mais nada, é importante entender o que é TV Digital e porque ela transcende o que conhecemos atualmente por televisão. Desde que foi inventado há 60 anos, o sistema de transmissão e recepção de sinais de TV é, em essência, o mesmo até hoje. Se qualquer dia desses você encontrar aquela velha TV que foi da sua avó, vai descobrir que ela ainda funciona, apesar de toda evolução técnica dos últimos anos.
Do ponto de vista tecnológico, a Televisão passou por 4 grandes mudanças. A primeira aconteceu há cerca de 35 anos quando, num soberbo trabalho de engenharia, a TV ganhou cores. Sucesso instantâneo, a novidade abriu novas fronteiras para os anunciantes e fortaleceu a TV como principal mídia existente. Outra mudança significativa veio dez anos depois, quando os transmissores e aparelhos de TV deixaram de ser construídos com válvulas e entraram na era do estado sólido, utilizando semicondutores (transistores e diodos). A televisão ganhou muito em qualidade, diminuiu de tamanho, ficou mais barata e popular.
A terceira grande inovação aconteceu há vinte anos atrás quando um grupo de empreendedores arriscou mudar o modelo econômico da televisão, e criou a TV a cabo. A idéia era simples : em vez de ter que assistir a comerciais de dez em dez minutos em troca de uma programação gratuita, os telespectadores passariam a pagar uma assinatura mensal e teriam uma programação livre de anunciantes. Bem cedo a indústria entendeu que essa era uma leitura míope do mercado, e hoje muitas estações de TV a cabo têm tanta propaganda quanto os canais abertos; receita, aliás,
sem a qual elas não sobreviveriam. A TV a cabo faz enorme sucesso (está presente em 67% dos lares americanos) devido à diversidade de programação e qualidade de som e imagem, simplesmente porque os sinais não são mais transmitidos livremente pelo ar, onde estão sujeitos a interferências, e sim confinados em cabos que ligam as estações transmissoras à cada residência assinante. Como os sistemas são privativos, o controle e exigências governamentais são muito menos severos.
Mais recentemente, os sinais de TV passaram a ser transmitidos também por satélites diretamente para as casas dos assinantes, num modelo de negócio similar e concorrente direto da TV a cabo. Tecnicamente, a grande inovação desse sistema é que a comunicação entre os transmissores na terra, o satélite e os decodificadores (aquele aparelho que fica em cima da TV nas casas dos usuários) é feita de forma digital. No entanto, para manter compatibilidade com os televisores atuais, o decodificador transforma o sinal digital novamente num sinal tradicional.
Vivemos agora a mais profunda transformação : a transição para a TV Digital. Isso quer dizer que os sistemas tradicionais de transmissão (chamados de analógicos) estão sendo completamente substituídos, e os equipamentos passarão a operar em código binário, como os computadores. Na prática, além dos benefícios usuais da tecnologia digital como maior qualidade de imagem e som, esse novo sistema traz grandes possibilidades como a HDTV (TV de alta definição, com som e imagem similares a de um cinema) e um nível básico de interatividade, que suporta por exemplo os serviços de Pay-per-View e de Vídeo por Demanda. Além disso é possível um controle quase total da tela do seu televisor. Por exemplo, ao assistir a um jogo de futebol num sistema digital, você pode dividir sua tela em várias, incluindo câmaras com ângulos diferentes. Que tal numa delas assistir o jogo defasado em 30 segundos, para que você possa rever as melhores jogadas ? E em outra, ter informações estatísticas sobre a partida ? Com um simples toque no controle remoto, escolha somente uma das telas para visualizar : afinal sua TV pode não ser tão grande assim. Repare que para utilizar o potencial da TV Digital, a produção de um evento é mais elaborada e significativamente e mais cara.
Os sinais da TV Digital continuarão a ser transmitidos pelo ar (TV aberta), por cabos e satélites em sistemas privados. Para implementar os novos serviços, será preciso substituir os transmissores e aparelhos de TV existentes, ou pelo menos ligar seu velho televisor num decodificador inteligente, para ter algumas funções básicas de TV Interativa e até mesmo acesso à Internet. Esse será um movimento bilionário, esperado com ansiedade pelos grandes fabricantes de equipamentos em todo o mundo. Somente no Brasil serão gastos cerca de U$ 1,7 bilhões para substituir os 8.000 transmissores de TV existentes. Um decodificador custa pelo menos U$ 500 e um aparelho de TV Digital, que tem a tela comprida, mais parecida com as proporções de uma tela de cinema, cerca de U$ 3.000. TVs digitais que suportam alta definição (HDTV), não saem por menos de U$ 5.000. Considere que existem mais de 40 milhões de televisores no país, e então você pode imaginar o frisson de empresas como Phillips, Sony, Toshiba e seus pares.
Muito bem, mas nem tudo é tão claro e cristalino como pode parecer. Durante muito tempo, a transição digital da televisão foi planejada como um processo evolutivo natural. Certamente não seria simples, mas o foco era principalmente a melhoria da qualidade de som e imagem através da HDTV; ninguém esperava por mudanças nos fundamentos do negócio. Na época de expansão econômica e tecnológica em que vivemos, seria natural que um mercado tão grande e promissor fosse cobiçado por muitas outras empresas. Mas o que assusta é que a velocidade das mudanças trouxeram para essa arena pesos pesados como Microsoft, Compaq e Cisco, empresas que até pouco tempo atrás não seriam consideradas como concorrentes. Junto com elas vieram inúmeras possibilidades, novos horizontes e todo um cenário de incertezas para o futuro.
A interatividade é a diferença fundamental entre o modelo originalmente concebido para a TV Digital e a Internet. De 5 anos para cá, a Internet interligou dezenas de milhões de pessoas e empresas, criou todo um novo mercado publicitário e mudou radicalmente conceitos e negócios : entramos numa era de interatividade e diversificação. Ela já exerce um papel fundamental no comércio mundial e ninguém duvida de que terá grandes aplicações na educação e no entretenimento. É inconcebível se pensar em qualquer forma de evolução da televisão que não envolva uma convergência com a Internet.
As inovações na tecnologia de stream de vídeo e a redução brutal dos custos de equipamentos de produção e edição de filmes digitais faz com que cada site na web seja um potencial canal de TV. Claro, ainda não dá para comparar a estrutura super profissional de produção das televisões ao fundo de quintal em que é feita a maioria das produções para a web, mas não é esse o ponto. As melhores produções dos melhores estúdios podem ser transmitidas pela Internet, ao vivo ou sob demanda, de forma aberta ou somente para assinantes. Nesse aspecto, a Internet apresenta uma economia de escala imbatível, e a vantagem de já possuir padrões unificados para produção e transmissão, o que constitui um dos maiores pontos de incerteza para os sistemas de TV Digital. Como os sistemas de TV à cabo são proprietários, houve uma grande proliferação de protocolos diferentes para transmissão dos sinais digitais, e atualmente existem pelo menos 6 padrões diferentes em todo o mundo. Isso faz com que não haja garantias de que um programa produzido para um sistema de TV funcione em outro, o que contrasta fortemente com a facilidade e imediata acessibilidade de qualquer recurso na Internet. Seja como for, não há dúvidas que bastarão alguns clicks no controle remoto para mudar de um canal de TV Digital para um site na Web.
Por mais radical que essa afirmação possa parecer, muitos visionários acreditam que apesar dos enormes investimentos realizados nos sistemas de televisão, seu futuro já tem nome : Internet. Mas para isso, a grande rede mundial terá que evoluir e se popularizar, deixando de ser somente um ambiente de comunicação entre computadores para integrar novos equipamentos e serviços, e dessa forma atingir uma parcela ainda maior da população. Atualmente a Internet está presente em somente 43% dos lares americanos, enquanto as TVs estão praticamente em 100% das residências.
Apesar do inexorável crescimento da Internet, ela depende do desenvolvimento de equipamentos mais baratos e mais simples para se popularizar e se tornar uma alternativa viável aos sistemas proprietários de TV Digital. Aliás, preço não é a principal questão, afinal um computador configurado para acesso à Internet custa cerca de U$ 800, mais ou menos o mesmo que um decodificador digital e uma boa TV, mas o fato é que ninguém quer assistir TV num monitor de vídeo, ou lidar com a complexidade de um PC nas horas de diversão. Já pensou se sua TV congelasse bem na hora do pênalti ? Ou então ter dar boot para assistir à novela das 8 ?
Existe portanto uma nascente indústria de TV Interativa, e não é coincidência que ela seja dominada por nada menos do que a omnipresente Microsoft, com um produto interessantíssimo chamado WebTV, ainda não disponível no Brasil. Atualmente os serviços de TV interativa fazem pouco mais do que dar acesso à Internet para navegação e leitura de e-mail através de sua televisão. Ah, e isso é bastante sofrível, pois fica impossível ler as letras pequenas de diversos sites, ou mesmo visualizar alguns arquivos atachados em e-mails, afinal sua TV não roda o Corel Draw. Tipicamente, um sistema de TV Interativa atual precisa de uma TV tradicional, um decodificador (cerca de U$ 200), uma linha de telefone e uma assinatura mensal na faixa de U$ 25. Depois de um dia tentando digitar no teclado da tela com seu controle remoto, você vai voltar à loja e gastar mais uns U$ 50 num teclado sem fio, mas enfim é uma alternativa viável e barata para acesso à Internet. No entanto os serviços mais interessantes são os de gravação digital (uma espécie de super vídeo cassete que parece fazer mágica) ou a TV pessoal, em que você escolhe o que e quando quer ver. Depois de alguns dias, o próprio sistema sugere uma programação para você, baseado nos seus hábitos. Outras empresa que planejam estar cada vez mais presentes nesse segmento e dar acesso à Internet pela TV são a Sony e a Nintendo, com seus super consoles de games.
Seja como for, o que chamaremos de TV Digital será muito mais parecido com os computadores do que com os atuais caixotes que conhecemos. Diferentemente de um sistema fechado para reprodução de sons e imagens, a nova TV terá um grande apelo para conectividade e integração de periféricos. Ela certamente será modular, para que não fique tecnicamente defasada frente à incrível evolução dos recursos digitais. Será fácil integrar equipamentos que hoje funcionam em computadores como gravadores de DVD, câmeras digitas para videoconferência, sistemas de identificação biométrica (leitura de digitais ou do fundo do olho) e muitos outros mais. Acredito que as grandes telas planas serão seu principal ponto de diferenciação, e devem cair muito de preço nos próximos anos.
Uma questão que não está clara é como será o modelo econômico desse novo negócio. Afinal, se você puder optar por não assistir aos comerciais, quem é que vai se interessar em pagar por eles e financiar a programação ? Essa questão tem tirado o sono de muitos executivos, e as soluções apresentadas parecem realmente estranhas. Veja por exemplo o merchandising on-line : ao assistir a um seriado, por exemplo, você poderia gostar da camisa de um determinado ator, e com um simples clique de mouse sobre a camisa ir a um site na Internet e comprá-la imediatamente. Sinceramente, você se vê fazendo isso ? A maior parte das pessoas assiste TV para relaxar, e além disso você perderia o seriado ! Sem dúvida ainda é cedo para entender como toda essa parafernália vai se encaixar em nossas vidas.
Estamos apenas desbravando essa nova fronteira. No Brasil, os testes começaram em novembro de 2000, com a transmissão digital do jogo entre Vasco e Bahia pela Sky, operadora de satélite. O sucesso foi grande, e motivou a operadora a produzir vários outros eventos, incluindo o Oscar e serviços de home banking. A NET está conduzindo uma experiência de TV Digital interativa a cabo em Sorocaba para 250 residências, e ainda nesse ano o governo deve escolher um dentre 3 padrões concorrentes para difusão de sinais da TV Digital. As primeiras transmissões com sinais digitais abertos deve ocorrer em 2003, e espera-se que em até 10 anos quase a totalidade dos brasileiros adote o novo sistema. Aí então a velha TV analógica será definitivamente aposentada, e a banda de frequência liberada para serviços como Internet móvel ou telefonia celular.
Quando a TV foi inventada na década de 40, um famoso e inteligente escritor afirmou que estaria fadada ao fracasso, pois ninguém em sã consciência passaria suas horas diante de um caixote. Talvez todos tenhamos enlouquecido, mas o exercício de prever hoje o impacto da TV Digital e da convergência das mídias em nossas vidas é certamente um dos mais arriscados possíveis.
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